O ser humano, por meio das crenças advindas das experiências decorrentes de sua história pessoal e sócio-cultural, molda a percepção e os conceitos que tem de si mesmo e do mundo no qual se insere.
Ao incorporar a linguagem, o indivíduo se estrutura enquanto pessoa, simbolizando e significando impressões e sentimentos diversos; resultando em associações e estados emocionais específicos que serão percebidos na maneira como irá lidar com os limites que a noção de realidade impõe a si mesmo e aos outros.
Primeiro Capítulo
Breve Histórico
Anaxágoras (século v a.C.) distingue pela primeira vez na História, Soma e Psique, firmando a dualidade corpo-mente. Já Aristóteles percebe corpo e espírito como uma única substância; e Descartes entende corpo e espírito como sendo distintos e separados, contudo apresentando influência recíproca.
Em um perfil histórico podemos encontrar várias linhas de pensamento filosófico que originaram as múltiplas formas de entender a relação mente e corpo.
A psicologia moderna estuda a influência mente corpo através da psicossomática. O termo “psicossomático” é mencionado
O termo psicossomática é mencionado pela primeira vez no meio científico, em 1918 pelo clínico e psiquiatra Heinroth para manifestar "a influência das paixões sexuais sobre a tuberculose, a epilepsia e o câncer". Sendo o modelo da época positivista mecanicista, a doença era comumente enfatizada como sendo de origem apenas orgânica. Dez anos após, em 1928, o mesmo Heinroth cria a expressão “somatopsíquica”. Contudo, o movimento só se consolidou em meados do século XX com Alexander e a Escola de Chicago, onde a psicossomática evoluiu em três fases: inicial ou psicanalítica, predominando os estudos sobre a origem inconsciente das enfermidades; a intermediária ou behaviorista, enfatizando os estudos sobre o estresse, direcionando sua pesquisa às ciências exatas por meio de experiências em homens e animais; atual ou multidisciplinar, podendo abarcar as outras duas teorias, ressaltando a importância do meio social e da visão de interação assim como a interconexão dos diversos profissionais de saúde.
Dentro da psicologia experimental ou comportamental a psicossomática ganha ares de “gente grande” ao se estender como um campo multidisciplinar de estudo, através da teoria do estresse - síndrome geral de adaptação - (Canon, Selye) e da teoria corticovisceral (Pavlov, Bikov). Na teoria psicanalítica, Freud retrata o sintoma pelas imposições inconscientes a partir dos conflitos rejeitados no campo da consciência. Dessa forma a psicanálise se apropria do termo psicossomático para explicar a influência da psique no soma, embora enfatize a contribuição do orgânico no psíquico, em vista das recentes descobertas físico-químicas e bacteriológicas.
Mais tarde porém em seu livro A Interpretação dos Sonhos (1900), Freud alega que a localização das instâncias psíquicas não deve ser buscada em um ponto anatômico, mas em pontos indeterminados, ressaltando a importância do inconsciente e do consciente, ou seja, dos processos mentais sobre o orgânico, sua inter-relação. Freud interessa-se assim pelo o que há além dos sintomas percebidos na clínica e nas manifestações orgânicas, encontrando sentido no âmbito do inconsciente, onde se situam pontos nodais, ou bloqueios impeditivos ao funcionamento adequado do indivíduo, bloqueios estes em que Jung situa os complexos e sintomas neuróticos que esvaziam seus conteúdos através da análise. Nos dois casos a doença seria decorrente de um desvio da energia natural ou libido existente no ser humano. Como vemos na histeria, onde o afeto ocasiona uma representação no corpo. Buscando elucidar tal fato Groddeck assinala o fenômeno psicossomático como sendo a linguagem do corpo.
Groddeck (1997), um dos precursores em psicossomática, traz uma grande contribuição à psicossomática com sua visão interpretativa das doenças orgânicas ligando-as às questões psíquicas. Utilizando a teoria psicanalítica nas doenças orgânicas, em sua obra O Livro dIsso Groddeck (1997) aplica o esquema da simbolização às enfermidades, identificando o fenômeno psicossomático como sendo a linguagem não simbolizada do órgão lesionado. Ele consegue através da elaboração e decodificação dos sintomas de seus pacientes integrar a doença a uma causa psíquica emocional que antes era desconhecida para a pessoa, por estar em nível inconsciente. Elucida bastante através de seus estudos de casos. Sua contribuição é genial em vários aspectos na linha da psicologia.
Alguns pesquisadores ainda trabalharam na tentativa de traçar perfis psicológicos para os pacientes psicossomáticos. Como se houvesse um tipo específico de personalidade que predispusesse a pessoa à doença. Outros como Pierre Marty, psicanalista da escola francesa, caracteriza o paciente pela pobreza de associações subjetivas e dificuldade em estabelecer transferência e simbolização. Afirmando com isso que os sintomas não têm uma significação específica e, pelo contrário, seriam decorrentes de falta de simbolização e carência de representação. O que me parece uma visão um tanto simplista e reducionista do complexo processo psicossomático.
Crença
Pensar em crença é pensar em sistemas de valores que constroem a realidade a partir de conceitos que a família, a escola e os meios de comunicação social no mundo moderno, nos impõem. A educação tem um importante papel neste sentido, pois é ela que “difunde e legitima os saberes culturais” (Pierre Bourdieu, 2002, p. 6).
Nota-se que a civilização traz o enquadramento do indivíduo. Observamos em Freud uma preocupação pelo fato social sobrepujar o desejo do indivíduo.
“A substituição do poder do individuo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização. Sua essência reside no fato de os membros da comunidade se restringirem em suas possibilidades de satisfação, ao passo que o indivíduo desconhece tais restrições” (Freud, 1930, p. 115).
Na produção da cultura vemos estratégias bem urdidas que garantem a padronização dos indivíduos, padrões estes que geram conflito interno entre os nossos desejos e as regras impostas. O que pode nos trazer a incongruência que é quando gostaríamos de fazer algo, mas deixamos de fazer em favor de outra coisa, e ficamos nos sentindo incomodados com aquela falta de coerência conosco. É como se houvesse dois lados em nós, um produzido pela cultura e o outro original, natural. Um que nos diz o que desejamos e o outro que diz o que seria mais adequado aos olhos da sociedade e aos olhos do outro. A incongruência traz em geral conflito interno, sendo essa falta de sintonia responsável por sintomas e doenças no indivíduo. As crenças se encaixam nas coisas de que estamos convictos ser o adequado, o certo. Mas quando esses dois aspectos se harmonizam, há a congruência e o resultado é um intenso bem estar. Já não precisamos ficar provando o tempo todo quem ou o que somos, já que seremos nós mesmos, sem ficarmos na defensiva que não mais se justifica. Um exemplo prático é o de que se eu me convenço de que sou boa e devotada, estarei sempre em alerta para não deixar esta máscara cair perante o outro ou eu mesma. E, além disso, vou agradar e doar ao outro, mas me sentirei imensamente prejudicada se não houver o retorno do que fizer, já que este fazer não é natural, ele foi forjado, elaborado, engessado e precisa de uma enorme quantidade de energia constante para se manter. O mais adequado é ser coerente consigo dentro dos limites existentes em uma comunidade relacional.
Então as crenças podem não ser conflitantes? Podem, desde que os nossos lados estejam em aquiescência. Ao desenvolvermos o senso crítico através de um conhecimento de nós mesmos e do funcionamento social através das experiências, observações e desenvolvimento pessoal integraremos os nossos aspectos àquilo que faz parte de nossa constituição enquanto seres sociais, espirituais, culturais, biológicos e mentais.
O desequilíbrio traz sempre alguma conseqüência indesejada. É ilustrativa a história de um paciente atendido em um momento de intensa depressão precedida de estresse pós-traumático a uma cirurgia cardíaca. Decorrida uma semana da operação apresentava um quadro de anorexia agravando seu estado de saúde e sua recuperação. Estava consciente de que em seus cinqüenta e poucos anos havia levado uma vida muito boa, tinha uma família ótima, mulher e três filhos, situação financeira estável, emprego de quase trinta anos, status de líder entre os colegas, e largo período de chefia. Com curso superior e um extenso núcleo parental harmonioso “não tinha do que se queixar”, mas no momento se sentia fragilizado; sensível, e freqüentemente emocionado, fazia a equipe do hospital sentir-se impotente para tratá-lo. Estava confuso em suas próprias emoções e não conseguia forcas suficientes para sair da situação. No decorrer da entrevista pudemos perceber que suas emoções sempre tinham sido relegadas a um segundo plano, como se não fossem importantes; era indispensável fazer o que tinha que ser feito, o resto ficaria para depois. A emoção e seus desejos eram o resto, ele foi percebendo que sempre tinha sido “durão”, era o seu papel ser assim para dar conta das responsabilidades. Ao adoecer parece que o resto tomou conta dele, ou seja, ele precisou entrar em contato com suas insatisfações, inseguranças, seus medos, seus desejos sempre postos de lado. Ele pôde então permitir-se ser honesto consigo mesmo e após alguns dias este senhor parecia um novo homem, levantou-se, recuperou sua fome, sua vitalidade e pôde voltar para casa com o propósito de se conhecer melhor.
Por outro lado, em alguns momentos vê-se comportamentos inadequados de pessoas que se reprimiram durante anos e anos e de repente alteram seu modo de vida, podendo agir compulsivamente, ou em casos extremos, até mesmo atuar de forma criminosa; pessoas antes pacíficas de repente saem quebrando todas as regras sociais. Na realidade, isso é menos comum, pois a maioria de nós age de modo a coagir o outro no sentido de doutriná-lo no contexto social. Um mecanismo do controle, coerção social, exercido desde os primórdios da civilização.
As pessoas se desenvolvem em meio a essas restrições e firmam sua identidade pelas suas crenças, o que as faz ter um funcionamento coletivo e individual razoável. O que podemos observar é que através de rituais elas se fundamentam no fluxo social. Essa constatação é reforçada ao se verificar que os povos quando dominavam outros se valiam do aniquilamento das crenças do povo dominado e só assim conseguiam “destruir” o mesmo. De certa maneira, a crença é a essência do ser humano, mesmo que pela sua utilização seja fé ou má-fé.
De qualquer forma, o processo de desenvolvimento do ser humano nos trouxe legados, formas de pensamento e posições comportamentais derivados de nossas raízes intuitivas, religiosas e políticas.
Não se trata, porém, como se poderia pensar, de conceber uma atitude crítica ou exclusiva das noções cerceadoras da sociedade e sim de reconhecê-las em sua manifestação. Saber que o próprio limite é fonte geradora do desenvolvimento saudável do ser humano à medida que vivenciar a frustração o faz posicionar-se adequadamente, desde que num grau tolerável sem conduzir à repressão exagerada, e na mobilidade dinâmica do indivíduo.
No entanto, podemos transcender ao que nos foi imposto de maneira inadequada, ir além através da compreensão dos mecanismos que utilizamos para funcionarmos de acordo com o contexto, navegar sobre o poder cerceador sendo capazes de ir além de nosso próprio funcionamento, que normalmente é regido por leis do inconsciente, como deslocamento, sublimação, condensação.
Psicossomática
Concebemos o ser humano como um ser bio-psico-histórico-social ético e espiritual, em uma dinâmica relacional complexa e sentida de maneira individual, apesar de afetar e ser afetada de forma coletiva.
As enfermidades orgânicas, as somatizações, as conversões e os transtornos funcionais são discutidos e percebidos diferentemente nas distintas teorias. Mas o fundamental é a melhor adequação possível do ser humano ao seu meio e ao relacionamento com o outro que deve se basear no amor e no respeito às diferenças existentes. Apesar de todos os conflitos angústias e problemáticas vividas. A propósito de todas as maravilhas percebidas vivencialmente.
A partir de estudos baseados em experiências clínicas podemos entender melhor a psicossomática.
Há concepções e designações diferentes em relação ao fenômeno psicossomático: Groddeck (1992) caracteriza-o como a linguagem do órgão, sendo o fenômeno psicossomático uma forma de trazer à tona processos inconscientes, na maioria reprimidos, onde, pela compreensão por parte do indivíduo da significação de seu adoecer, se daria a resolução desse fenômeno.
Dunbar refere-se à psicossomática como sendo a neurose do órgão, o conteúdo conflituoso e desarmônico da psique que se instalaria no corpo até que pudesse ser identificado e elaborado. Alexander, por meio da neurose vegetativa, vê a lesão como uma forma de atuarem no corpo fatores que não estavam conscientes a pessoa. A escola francesa se contrapõe em parte, ao falar do pensamento operatório e da conseqüente pobreza de significação da pessoa lesionada. É como se a pobreza da linguagem, podendo ser gerada por algum distúrbio qualquer sempre ocasionasse um distúrbio no soma (corpo).Valabrega, através da conversão psicossomática, e os kleinianos por meio da conversão somática, mensionam também os conteúdos inconscientes não elaborados que se instalariam nos órgãos sob a forma de lesão.
Outro psicólogo pioneiro em psicossomática, Wilheim Reich, oferece uma grande contribuição à área por meio de suas pesquisas na interpretação da “fala” do corpo. Alia à repressão a doença, sendo esta conseqüência do bloqueio no fluxo libidinal (energia e desejo). Reich traz ainda a importância de um corpo psicossomático - raiz de angústias acumuladas pela história pessoal de cada um, construindo seu corpo psicossomático particular, um corpo fantástico ou sem órgãos (simbólico), criando o espaço de um corpo povoado de inúmeras multiplicidades. O corpo psicossomático ou fantástico de Reich é vivo, pulsátil, orgânico, social, político, econômico, que exatamente por isso retira o organismo de sua circunscrita organização. Permite a leitura somática da expressão emocional, que lê os caracteres amarrados ao fluxo libidinal onde se formam as couraças ou defesas do corpo.
De qualquer forma, na visão de muitos psicanalistas a psicossomática é o resultado da “teoria das pulsões”, destacando “o estudo das formas pelas quais os impulsos instintivos, privados de suas fontes naturais de satisfação, afetam o funcionamento do corpo". (A história da psicanálise. São Paulo, USP, livros Técnicos e Científicos, 1981, p. 162). Um desejo buscando se realizar estaria propenso a se manifestar no físico em forma de sintoma. O sujeito é por excelência um sujeito desejante, que se representa pela linguagem e atuação em sua realidade circundante. Onde seu desejo for cerceado, gera o paradoxo do movimento no impedimento. A castração ou restrição nos leva a superação dos limites pelo deslocamento, sublimação, condensação e principalmente pela consciência de poder ampliar nossa atuação.
O psicanalista Jacques Lacan (1953) oferece uma brilhante contribuição na área do aprofundamento na estruturação da consciência humana; ao fazer uma releitura de Freud resgata e institui a importância da palavra na cura do sujeito, enfatizando a lógica do significante como meio de antever as leis de funcionamento do inconsciente. A partir da lógica do significante, o sintoma, psicanaliticamente falando, define-se como uma formação do inconsciente, através da estrutura de linguagem, onde se opera uma substituição (metáfora) passível de modificação a partir de uma interpretação, e onde portanto o Outro estabelece uma relação constitutiva.
Lacan diferencia sintoma do fenômeno psicossomático: enquanto no sintoma há efeitos de ordem psicológica sobre o somático, no fenômeno psicossomático existe uma mobilização psíquica em função de um acontecimento significativo para a pessoa. Por exemplo, um evento ligado a datas e fatos específicos que induz a um significante contém uma causa de ordem psíquica e não orgânica. Lacan, portanto entende que não há um sujeito psicossomático, ou uma quarta estrutura psíquica, tais como existem as estruturas neurótica, psicótica ou a perversa. Qualquer uma destas estruturas pode perfeitamente apresentar lesões psicossomáticas, não necessitando existir uma outra estrutura psíquica.
Freud destaca na medicina psicossomática as determinações inconscientes ou sintomas que se formaram através de conflitos sexuais ou libidinosos recalcados em nível de consciência na infância. Freud enfatiza a contribuição do organismo na psique e não da psique no organismo, em acordo com a via biológica de sua época.
Em Reich (1979) vemos o corpo sendo analisado cuidadosamente. Quanto mais vivo for o corpo, maior será a percepção que tem do mundo e mais forte sua resposta a ele, o que gera o sentimento de identidade derivado de um sentimento de maior contato com o corpo. Para se conhecer, a pessoa deve saber o que sente através da expressão de seu corpo. As atitudes corporais revelam o indivíduo. Reich, como discípulo de Freud, reivindica a repressão e os limites aos desejos, se expressando primeiramente pelas restrições físicas e somente mais tarde em termos verbais. A criança que é impedida de fazer por suas limitações físicas ou pelo cerceamento exercido pelo adulto sucumbe mais tarde ao poder de nomear ou conquistar o poder de nomear. A repressão produz a fixação em padrões e finalidades infantis. Coloca portanto na repressão e no recalque o despertar do conflito gerador de dificuldades no desenvolvimento adequado do ser humano.
Jean Guir (1988) descreve as funções biológicas do corpo relacionando-as com a linguagem conforme a teoria lacaniana; enfoca o fenômeno psicossomático como manifestações singulares no simbólico:
"Os fenômenos psicossomáticos, em sua causalidade significante, são abordados a partir de certas manifestações no simbólico: ruptura especifica da estrutura do nome próprio; significantes relativos a datas que constituem um marco ancorando no corpo; transexualização que obriga o órgão afetado a ser o representante do outro sexo; emergência dos significantes particulares nas holofrases e no umbigo dos sonhos. Solução encontrada para um defeito de filiação simbólica, esses fenômenos que se inscrevem como signos bizarros sobre o corpo, são tomados como parte integrante da textura do sujeito, constituindo um nó de inércia dialética”. (Guir, Jean pág. 24, 1988).
Afirma Guir que certos significantes no decorrer da história da pessoa acionariam o funcionamento de genes responsáveis pelas doenças ou fenômenos psicossomáticos, alterando os genes, adquirindo novos fenótipos durante a vida. As experiências que a pessoa tem ao longo da vida segundo esta afirmação poderiam mudar caracteres genéticos presentes e futuros. Trabalhando com esta hipótese teríamos de pensar que com o passar dos anos a espécie humana poderia estar radicalmente mudada. Mas talvez a questão fundamental seja: para onde caminha essa transformação? Será que poderemos prever aonde irá desaguar a humanidade? A antroposofia, a psicologia, e os estudos filosóficos e históricos talvez nos dêem uma pista de como se delineará tal processo. Para isso será preciso um estudo profundo do desenvolvimento da consciência humana desde os primórdios até os dias atuais, a fim de se tentar prever, mas apenas prever, sem exatidão. Já que as coisas do homem são subjetivas e de certa forma imprevisíveis em termos de certezas fechadas.
Atentemos para o fato de que mesmo tendo em mente a inter-relação existente entre corpo e psique, o que acontece em uma instância influencia outra igualmente. Para efeito de estudo, como saber o que é da ordem do psíquico e o que é da ordem do somático? No que diz respeito à conversão histérica e ao fenômeno psicossomático, Lacan distingue-os objetivamente: é conversão quando a lesão ao ser interpretada cessa; e é fenômeno psicossomático quando ficam congelados ou bloqueados certos significantes, não podendo o sujeito deslizar e se ligar a outros significantes, isto é, se estabelece um “nó”, ocasionando manifestações lesionais. Lacan destaca ainda a história familiar e suas implicações na significação da doença para a própria pessoa. Ao re-significar a história da família, a pessoa poderá alterar o congelamento de significantes, resultando na possibilidade de deslizamento do mesmo, que traria à pessoa a oportunidade de cura. Esses significantes seriam referentes a datas e números que encontram fixação no real, ou seja, no corpo. Também podendo ocorrer o congelamento de significantes quando o sujeito se vê na obrigação de ser do sexo oposto ao seu, o que o posiciona à disposição do Outro, se destituindo de seu lugar enquanto sujeito; e por último Lacan destaca o fenômeno psicossomático como resultado de gestos e holofrases, que contextualizariam os significantes congelados.
Násio (1991) afirma com Lacan quando diz que a realidade é feita de significantes que se repetem nas identificações simbólicas (desejo do Outro). Ao entrar em contato com o significado, o sujeito se encontra com as identificações simbólicas que, por sua vez, determinam o seu lugar enquanto indivíduo. Mas para que haja realidade é necessário que esse complexo de imagens e significantes se entrelace em volta da insatisfação que o sujeito revê cada vez em que há a repetição. A realidade é o objeto e o meio para que se obtenha a satisfação. O desprazer é um fragmento da realidade. É necessário perder para que se perceba o fato, já que a perda leva à busca e ao movimento do ser humano, que busca o que sente ter perdido. Em um constante vir a ser. Sendo a fantasia psíquica parte da realidade do sujeito, onde através do limite, da borda, da falta, se preenche a realidade; esta seria a percepção consciente do eu, o meio de se obter a satisfação. Através da busca e da construção da realidade. Delineando uma nova realidade local possibilitando a doença ou o sintoma. Ela é necessária segundo Násio para a circulação psíquica que faz com que se vislumbre a realidade.
Mirian Noêmia F do Nascimento
quinta-feira, 8 de maio de 2008
quinta-feira, 15 de março de 2007
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